Me lembro a primeira vez que vi mulheres japonesas em uma luta livre. Eu estava em um hotel em Tóquio, zapeando pelos canais quando, de repente, duas mulheres apareceram urrando e descendo o pau pra valer. Elas pareciam selvagens e muito mais assustadoras do que suas correspondentes norte-americanas, que sempre tem um visual sexy meio She-Ra.
Kim Longinotto é uma
documentarista conhecida por retratar mulheres que se recusam a se calarem e a
fazerem o que é esperado delas: quenianas se opondo à circuncisão, camaronesas
se divorciando dos seus maridos estupradores, e adolescentes iranianas
molestadas fugindo de casa. Me encontrei com Kim enquanto ela estava editando
seu último filme. Conversamos sobre o Gaea
Girls e sobre documentários em geral.
Difícil
em que sentido?
Emocionalmente. Achei muito, muito doloroso filmar certas coisas. Quando eu era criança, minha mãe gostava de assistir luta livre, e mesmo ela sempre me dizendo que era tudo coreografado, eu sempre achei muito difícil. É a dor, é sobre a dor.
O
fato de ser coreografado nunca é mencionado no filme.
Na verdade você pode assistir às lutas e ver quais são forjadas. Nada no ginásio é armação, como todas as outras lutas entre Chibi e Satomura. Quando eles estão tentando despertar o instinto assassino da Chibi, tentando deixá-la agressiva, é pra valer. Ela quer ser alguém, ser uma estrela, e eles querem que ela seja uma lutadora. Eles querem que ela queira machucar a outra pessoa, e que queira ganhar. E você pode ver isso nos olhos delas.
A
Chibi chora muito no fime. Nas lutas americanas parece que os lutadores curtem
violência, mas parece que ela entrou nessa mais para provar alguma coisa para
ela mesma.
Antes eu pensava: “Por que a Satomura está tão brava com a Chibi?” E é porque ela não demonstra agressão, ela não demonstra que está gostando. Satomura acha que se você tiver essa atitude quando estrear as pessoas vão ficar putas com você porque você não está se portando como uma lutadora. Sabe, você é ou não é, mas mesmo que você não seja vamos deixar você estrear porque não tem tanta gente assim. Então quando ela de fato luta, ela perde, claro. Ela poderia ter ganho aquela luta, não acho que tenha sido arranjada, mas esse não é o tipo de coisa que você pergunta, porque sempre vão dizer que nada é arranjado.
Eu entendo porque a Chibi queria ser uma lutadora. Ela sempre dizia: “Elas são tão bonitas, quero ser como elas.” Quando tiram uma foto dela depois da estreia, é o seu maior triunfo, mesmo tendo perdido. Acho isso extremamente triste. Ela posa com a família e todos dizem: “Você conseguiu, você conseguiu!” e você pode ver que ela sabe que é a mesma Chibi de sempre, que nada mudou.
Ela não durou muito depois disso.
Acabou indo trabalhar num posto de gasolina.
Mesmo
quando ela passa no teste que permite sua estreia, ela continua chorando e não
parece feliz, porque sabe que não merece e que não significa nada de fato.
Eu acho que vale para todos nós. Quando eu estava no internato, queria ser uma garota popular, mas eu era uma dessas pessoas que nunca se encaixava. Lembro de ter ganho um campeonato de tênis e pensado: “Agora que ganehei vou ser uma pessoa glamourosa, popular.” E ninguém se quer aplaudiu quando fui ao pódio, porque ainda era eu, sabe?
Você
já chegou a querer deixar a câmera de lado e fazer alguma coisa? Estou pensando
na parte em que Takeuchi está sendo testada e fica tomando uma série de socos na
cara da Nagaya.
Essa foi a única parte do filme em que achei que alguma coisa estava um pouco fora de controle. Havia algo rolando entre ela e a Nagaya. A Nagaya diz que pensa naquelas garotas como suas filhas, e o lance de mãe envolve um poder absoluto, as pessoas fazem coisas terríveis com seus filhos. Havia algo rolando naquele ringue e eu lembro de ter me pergunatdo até onde aquilo iria. E na verdade chega uma hora que você não consegue seguir filmando.
Ficar
atrás da câmera ajuda você a se distanciar do que está testemunhando de alguma
maneira?
Às vezes sim. Lembro de um filme
de um operador de câmera em Gaza. Você assiste ele filmando sua própria morte.
Um soldado israelense aponta uma arma para ele, com ele filmando, e depois
dispara. Às vezes você fica pensando no enquadramento e fica em outro mundo,
deslocado. Mas foi diferente com Chibi, porque cultivamos um amor por ela. Eu
realmente me identifiquei com ela, e é por isso que foi um filme difícil de se
fazer. O final inteiro foi muito difícil de filmar.
Muito mal. E acho que Gaea Girls é um divisor de águas pra mim. Não existe um senso de objetividade no filme em que estou trabalhando no momento, por exemplo, que é totalmente sobre ver tudo através dos olhos das garotas que estão no filme.
Você
tem algum tipo de agenda quando vai fazer filmes agora? Entre documentar o que
está acontecendo e promover uma causa? Porque algo como Sisters In Law realmente parece promover o que elas estão fazendo.
Eu nunca pediria a alguém para
fazer alguma coisa, mas você sabe que vai passar três meses em algum lugar e
todo dia vai ter que dar o seu máximo e você tem que se preocupar com o que
está fazendo. E estávamos felizes de estar com Amina [uma mulher tentando se
divorciar do marido que a espanca e estupra]. Não queríamos que ela voltasse e
fosse morta; estávamos felizes de estar lá para encorajá-la, e acho que foi por
isso que ela venceu. Acho que nossa presença lá possibilitou que ela levasse o
caso adiante. Senão, teria sido muita coincidência o fato de ter havido dois
casos que as mulheres ganharam (pela primeira vez em 18 anos) enquanto
estávamos lá.
E me sinto com isso, sabe, de que em todos os casos ficou bem claro que eu estava ao lado da pessoa mais fraca.
Então,
de alguma maneira, você se tornou mais do que uma cineasta, quase uma ativista?
Na verdade não. Todo o risco, energia e dor que elas tem que aguentar... Só temos que estar lá e filmar. Ser uma testemunha. O que elas estão fazendo é incrivelmente corajoso, estão quebrando todas as regras e tabus.
Quando
você tem crianças muito pequenas nos seus filmes falando sobre coisas
traumáticas que aconteceram com elas, como em Sisters In Law com a garota que foi estuprada, como você acha que
elas vão se sentir em relação ao filme quando forem adultas?
Bom, com aquela garota, Sonita, o vilarejo inteiro sabia porque ela ficou muito machucada e as mulheres saíram com bacias e teve sangue por todos os lados. Depois houve um grande julgamento, então não tem como ela esquecer ou manter isso em segrego. E ela ganhou. Foi o primeiro caso assim. Aquele homem tinha feito aquilo por anos e anos e se safado. E o jeito que vejo isso é melhor do que apenas dizer que ela é uma vítima. Levá-lo para a corte e enfrentá-lo como ela fez... Ela deveria estar orgulhosa disso. Acho que toda essa coisa de estupro, de como as mulheres supostamente devem se sentir envergonhadas e manterem isso em segredo, sabe, toda a vergonha tem a ver com a pessoa que fez aquilo a ela. Eu não entendo isso. Quando eu fui estuprada, fui bem espancada. Lembro das pessoas me perguntando o que havia acontecido e decidi que não ia mentir, que não não tinha feito nada de errado. É ridículo. E acho que nós menosprezamos as crianças, a Sonita se sentiu orgulhosa de ter feito aquilo. Ela de fato fez uma coisa extraordinária.
Você já teve algum problema com censura? Seus filmes têm cenas angustiantes.
Fizemos uma exibição de Sisters In Law na África do Sul e um
homem se levantou na platéia e disse: “Como vocês podem mostrar a Sonita desse
jeito? É vergonhoso. A garota foi estuprada.” Mas depois várias mulheres se
levantaram – várias – e disseram:
“Todas nós fomos estupradas e agora vamos contar para todo mundo.” Acho que é
um pensamento antigo, do século XX talvez. Acho que as coisas estão mudando.
Acho que é porque as pessoas
estão os fazendo de maneira diferente. Éramos acostumados a documentários com
comentários, meio chatos, cheio de fatos e figuras... maçantes. Essa fronteira
está ficando cada vez mais difusa. Agora você é entretido, tocado, passa por
uma experiência emocional, e tem essa janela para outro mundo pela qual você
entra da mesma maneira que na ficção.
Hadouken!
Posted by: Ryu | 02/08/2010 at 04:27 PM